O que os resultados da Rede Tênis em 2025 mostram sobre um modelo que forma cidadãos e atletas de elite
Quando iniciei na gestão esportiva, em 2020, como CEO da Confederação Brasileira de Rugby, ouvi com frequência uma ideia bastante difundida no esporte brasileiro: projetos com foco em impacto social dificilmente conseguem gerar resultados em alto rendimento. Depois de cinco anos na gestão esportiva — e hoje há um ano à frente da Rede Tênis — vivendo a operação no dia a dia e acompanhando os resultados de perto, ficou claro para mim que essa oposição é falsa. No tênis, quando o acesso vem acompanhado de um modelo consistente de desenvolvimento de atletas no longo prazo, impacto social e alto rendimento caminham juntos — e se reforçam.
Hoje, a Rede Tênis é o maior programa de massificação e formação do tênis da América Latina. Ao longo de 2025, mais de 15 mil crianças e jovens participaram do programa de massificação da Rede Tênis, em 14 cidades brasileiras. Para muitos, o primeiro contato com uma raquete aconteceu em escolas, parques e quadras públicas. Mas o que realmente diferencia esse modelo não é apenas o alcance, e sim a profundidade do impacto. O acesso é o começo — não o fim — do processo.
Nos últimos anos, estruturamos uma jornada clara de desenvolvimento. Jovens que demonstram aptidão e compromisso passam a treinar com mais frequência, em grupos menores, com acompanhamento técnico, físico, emocional e educacional mais próximo. Em 2025, mais de 250 crianças do Programa de Massificação da Rede Tênis receberam reforço escolar em português e matemática, e centenas passaram a treinar tênis entre duas e cinco vezes por semana, em turmas reduzidas, encontrando na modalidade um caminho concreto de transformação.
O lado social da Rede Tênis forma cidadãos, professores de tênis e, aos poucos, também atletas. Forma pessoas apaixonadas pelo esporte e cria uma base viva que sustenta o crescimento da modalidade. O projeto não apenas amplia o acesso: ele fortalece o ecossistema do tênis como um todo, ao revelar talentos, qualificar treinadores, formar público, gerar referências locais e criar vínculos duradouros com o esporte. É desse ambiente mais amplo, diverso e consistente que surgem tanto novos praticantes quanto os atletas que, no futuro, chegam ao alto rendimento. Sem base, não há elite; sem gente, não há esporte que se sustente.
Os resultados da frente de rendimento da Rede Tênis em 2025 foram expressivos e merecem destaque próprio. O Time Rede Tênis consolidou-se como uma das principais forças formativas do tênis juvenil brasileiro e atletas como Nahuany Silva (Naná), Guto Miguel, Pietra Rivoli e Pedro Chabalgoity, integrantes do Time Rede Tênis ao longo do ano, deram avanços significativos em suas trajetórias competitivas. No mesmo período, o Brasil teve sete atletas disputando os Grand Slams juvenis, e seis deles são ou já foram atletas do Time Rede Tênis — um dado que dimensiona o peso real desse trabalho no cenário nacional.
É importante, no entanto, compreender o tempo desses processos, já que os resultados esportivos, por sua natureza, são fruto de ciclos longos de formação. Os atletas que hoje representam o Brasil no alto rendimento juvenil iniciaram suas trajetórias em ciclos anteriores, quando o projeto de massificação ainda não contava com uma jornada estruturada de desenvolvimento do atleta. Portanto, os atletas do Time Rede Tênis não vêm de nosso projeto social. A exceção é Victoria Barros, que iniciou sua jornada no Programa de Massificação da Rede Tênis, integrou o Time Rede Tênis por três anos e hoje, aos 16 anos, figura entre as principais atletas do ranking juvenil da ITF, continuando sua trajetória na França.
A expectativa é, portanto, que esse movimento se intensifique nos próximos anos. As centenas de crianças que hoje treinam com consistência nas fases mais avançadas do projeto de massificação — com treinos frequentes, turmas reduzidas, competições regulares e acompanhamento técnico, físico, emocional e educacional — representam o elo que faltava entre impacto social e rendimento de elite. É através desse grupo que esperamos turbinar o futuro do tênis brasileiro.
2025 foi um ano de resultados incríveis e de muito orgulho. Mas, olhando para a base que está sendo construída, o futuro parece ainda mais promissor. Que venha o próximo ciclo do tênis brasileiro.
Mariana Miné é CEO da Rede Tênis Brasil e formada em Administração de Empresas pela FGV. Com vasta experiência nos setores esportivo e corporativo, foi CEO da Confederação Brasileira de Rugby entre 2020 e 2024, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo em uma entidade máxima do esporte olímpico brasileiro. Também atuou em posições de liderança na Ambev e Unilever e foi fundadora e CEO de uma empresa de alimentos para animais.



