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Quem é o técnico de Bia Haddad, que colaborou para tenista brasileira subir do nº 378 do ranking para o top 10

Beatriz Haddad Maia enfrenta nesta quarta-feira (30) a americana Taylor Townsend pela 2ª rodada do US Open, que tem transmissão ao vivo de todas as quadras pela ESPN no Star+, e tenta chegar a 3ª rodada do Aberto dos Estados Unidos, algo inédito na carreira da nº 1 do Brasil. O jogo está previsto para começar ao meio-dia, horário de Brasília, abrindo a programação do dia na quadra 17.

Quem acompanhou a tenista brasileira de 27 anos vencer a “anfitriã” Sloane Stephens na estreia do Grand Slam percebeu Bia vibrando algumas vezes em direção a sua equipe técnica na arquibancada. Com uma barba castanha e um boné, o técnico da brasileira, Rafael Paciaroni, transmitia mensagens curtas e incentivos para a jogadora que duelava contra a campeã do US Open de 2017.

Essa cena se tornou comum no último ano com a liberação do coaching (quando o técnico se comunica com o tenista durante a partida) seguindo alguns limites.

Mas quem é o técnico da Bia Haddad? A ESPN conversou, de forma exclusiva, com Rafael Paciaroni e pôde conhecer mais do treinador que é muito discreto e não tem, por exemplo, algumas redes sociais como o Instagram.

Brasileiro de 36 anos, Rafa, como é chamado por Bia e outras pessoas do ambiente do tênis, teve seu primeiro contato com a modalidade aos 12 anos.

“Eu me dedicava majoritariamente aos treinos e torneios de futebol, mas praticava e competia em outras modalidades no âmbito escolar e regional, dentre as quais o tênis de mesa, no qual eu possuía alguns resultados legais. O meu professor de Educação Física do colégio em que estudava, o querido e amigo Fábio Sassaki, me convidou para experimentar e vivenciar o tênis de campo.”

Paciaroni ainda lembra do primeiro contato com a raquete e com o esporte, que depois, se tornou sua profissão.

“Eu me recordo que era um sábado de sol, ele (Fábio) me emprestou uma raquete e fomos bater uma bola em um parque público de São Paulo. A partir daí começou meu amor e trajetória de vivências competitivas e educativas dentro da modalidade.”

Rafael não seguiu como tenista profissional, mas se formou em Educação Física pelo Mackenzie em 2009. Durante sua graduação, o paulista deu aulas de tênis em clubes de São Paulo, inclusive no tradicional Esporte Clube Pinheiros e também participou como voluntário dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007. Foi no Pinheiros que Paciaroni conheceu Beatriz Haddad Maia, então com 12 ou 13 anos, e teve o 1º contato com a atual número 1 do Brasil.

Depois de formado, Rafael se mudou para a Inglaterra e continuou aprendendo e trabalhando com o esporte lá. Questionado sobre o maior aprendizado no país inglês, o técnico brasileiro brincou:

“Essa pergunta merece um podcast ou aquele indesejável áudio de 10 minutos (risos) porque as reflexões e aprendizados deste período envolvem aspectos de ambiente de formação a longo prazo.”

“Um dos motivos que me levaram a viver na Inglaterra foi justamente para tentar responder à pergunta principal do meu projeto de mestrado na época que era tentar compreender o porquê de Brasil e Inglaterra que na época, sobretudo, possuíam uma situação econômica muito superior aos seus “vizinhos” Argentina e Espanha, mas no ambiente tenístico tinham (e ainda têm) resultados consideravelmente inferiores sobretudo no tênis profissional.”, completou.

Rafael Paciaroni se aprofundou no meio acadêmico, mas também na quadra e no aspecto prático de seus estudos. Escreveu o livro Tênis: novos caminhos para uma abordagem profissional, publicado em 2016.

No 2º semestre de 2020, Paciaroni reencontrou com Bia Haddad em Portugal, onde a tenista disputava uma gira de torneios ITFs. A brasileira estava praticamente sem ranking, acima de 1300, enquanto o técnico brasileiro acompanhava os tenistas Matheus Pucinelli e João Reis da Silva, ambos da equipe Rede Tênis Brasil.

A tenista brasileira acabou conhecendo mais a forma de Rafael trabalhar ao assistir aos treinos de Pucinelli e João Reis, e, por fim, acabou convidando o técnico para acompanhá-la até o final da gira dela, depois do término dos torneios do masculino. Após esse trabalho inicial, Bia Haddad propôs para Rafael Paciaroni ser o técnico dela na temporada de 2021. O nome de Rafa sofreu muita resistência de pessoas próximas à tenista e relevantes para o tênis brasileiro.

“Para mim, era uma desconfiança natural e totalmente aceitável naquele momento. A Bia já era uma realidade, havia sido 58 do mundo, as suas qualidades e possibilidades eram conhecidas. Já a minha carreira, foi construída passo a passo, sem atalhos, e até aquele momento eu havia realizado trabalhos consistentes, importantes a meu ver, como por exemplo colaborar diariamente durante muitos anos com a formação do Matheus Pucinelli e do João Lucas Reis, os dois hoje jovens e entre os 5 melhores tenistas brasileiros no ranking da ATP.”

“Mas o fato é que até aquele momento eu não havia treinado um jogador top 100 ATP ou WTA. Portanto, enxergo como uma desconfiança natural em um primeiro momento, sobretudo por aqueles que não me conheciam.”, completa o técnico brasileiro.

Quase três anos depois, Rafa acredita que essa desconfiança inicial foi superada.

“Agora, após a Bia ter chegado ao top 10 de simples e duplas, acredito que a discussão passa a ser outra, que é gostar ou não do trabalho realizado através da sua forma, mentalidade. Acho as indagações e discussões naturais e importantes. Estou feliz de contribuir, de alguma forma, ao mostrar que não existe apenas um caminho a ser trilhado dentro da carreira de treinador.”

Questionado se quando aceitou a proposta de treinar Bia, que estava fora do top 300 da WTA, imaginava que ela chegaria ao top 10, Paciaroni citou um grande nome da música brasileira, revelando um pouco do seu gosto musical.

“Tudo ou quase tudo começa com um sonho ou uma necessidade. No nosso caso é o privilégio do sonho e, parafraseando Milton Nascimento, sonhos não envelhecem. Em nossa primeira conversa oficial, após eu aceitar o convite para ser seu treinador em outubro de 2020, ainda em Portugal, falamos sobre sonhos de infância e projetos de vida, e nos propusemos a trabalhar duro diariamente e ir conquistando pequenos objetivos que nos aproximaria desse lugar onírico (dos sonhos).”

Sobre seu mérito nessa ascensão da Bia, Rafael Paciaroni faz questão de reforçar que a equipe técnica contribui, mas não é responsável pelo desempenho do atleta.

“Primeiramente, o mérito é totalmente da Bia e a sua capacidade de todo dia entregar 100% para todas as atividades propostas. Nós como equipe técnica temos pequenas colaborações. No meu caso como líder da nossa pequena e esforçada equipe talvez as principais colaborações estejam em ajudá-la a se cercar de boas pessoas e bons profissionais que tenham valores pessoais parecidos com os dela, além de conduzir a carreira de uma maneira salubre tanto mentalmente como fisicamente (Bia ficou 3 anos sem qualquer tipo de lesão que comprometesse algum jogo ou calendário até Wimbledon deste ano).”

O lado mental é um aspecto muito importante do trabalho de Paciaroni.

“Enxergo também que pode ter sido uma contribuição importante a discussão acerca da compreensão de que deveríamos gastar energia com coisas que podemos controlar, e que não deveríamos gastar tanta energia com situações que não dependem exclusivamente das nossas ações. Ah, e os estímulos para o desenvolvimento pessoal através de atividades como leitura, escrita e pintura. Acredito terem contribuído para um maior amadurecimento fora das quadras, que consequentemente se reflete dentro de quadra.”

“Mais especificamente como treinador eu diria que o principal foi a mudança de mentalidade de como enxergar o jogo atual de tênis e o que ela precisava mudar tecnicamente e taticamente para se colocar em uma posição de maior protagonismo. Esse trabalho é eterno e todos os dias buscamos novas soluções para os novos desafios.”, pontuou Rafa.

O treinador brasileiro contou um pouco como é uma conversa com Bia Haddad após uma grande partida e também como é o papo após um jogo ruim.

“As rotinas nos ajudam para que possamos tratar sucesso e fracasso com similar equilíbrio. Logo, independente do resultado da Bia, temos um processo e dinâmica estruturados de quando conversar, a que horas analisar um jogo, como nos preparar para o próximo, etc.”

Rafael Paciaroni, assim como a tenista brasileira, costuma focar muito mais no desempenho do que no resultado em si.

“De fato, somos uma sociedade que talvez se apegue mais aos resultados do que aos processos, mas tenho claro que preciso gastar a minha energia com a minha própria mudança de mentalidade. Se eu conseguir exercitar em mim aquilo que sonho e enxergo como ideal (entre aspas), através dos meus exemplos diários, talvez eu consiga levar inspiração a um pequeno ciclo ao meu redor, que neste momento envolve a Bia, e assim, quem sabe, colaborar para pequenas mudanças e transformações culturais.”

A parceria Haddad-Paciaroni já está transformando, um pouco, a sociedade brasileira que está cada vez mais acompanhando a tenista em suas competições e demonstrando toda a sua torcida, algo que agrada bastante a Bia.

“Ela está muito feliz com todo o carinho e energia que vem recebendo, em especial dos brasileiros.”, conta Rafael.

A equipe da brasileira, no entanto, não deixa que toda essa empolgação que o sucesso de Bia Haddad está provocando atrapalhe na rotina de treinos.

“A blindagem é uma busca por um equilíbrio nas vivências, com o intuito de proporcionar ao atleta maior longevidade mental e física. Na prática, o essencial de tudo é ter um congruente primeiro núcleo, que são as pessoas que exercem algum tipo de influência direta sobre a Bia no dia a dia, como a equipe, família e amigos muito próximos.”

“Uma vez que este primeiro núcleo está alinhado aos valores pessoais do jogador e sua carreira já temos um bom caminho andado para esta blindagem natural, que funciona como filtro e porto seguro simultaneamente. Ao mesmo tempo acho que também tivemos algum sucesso em relação as estratégias propostas e adotadas para que a Bia tivesse uma relação saudável com as mídias sociais.”, explicou.

Nos treinamentos, o técnico tenta criar um ambiente desconfortável, no bom sentido, para que a atleta tenha que entregar sempre mais.

“Nós nos entregarmos com a mesma paixão, humildade e disciplina desde que tivemos no primeiro dia de trabalho juntos em setembro e outubro de 2020. Aquele primeiro dia em que chegamos para fazer uma atividade nova. Para seguir vencendo é preciso seguir evoluindo diariamente já que o jogo está em constante evolução.”

“Trazer o estresse e pressão do jogo para os treinamentos diários através de exercícios e objetivos que não a permitam relaxar ou desfocar para que o jogo não se torne um evento isolado e sim um evento natural já que faz parte da sua rotina. A Bia se entrega 100% diariamente, com uma modéstia incrível, para esse ambiente exigente e desconfortável.”

Por fim, Rafael Paciaroni ainda brincou ao comentar como a liberação do coaching ajudou no seu trabalho de treinador.

“A Bia poderia responder melhor a essa pergunta (risos). Quem joga é o jogador. O feeling do jogador é soberano a qualquer estratégia montada pré-jogo ou a qualquer coaching, mudança tática, durante um jogo.”

O técnico da brasileiro ainda elogiou a mudança e explicou como funciona a dinâmica.

“Sou super favorável a regra como está hoje: o treinador pode falar frases curtas e o jogador não pode responder. O jogador escuta e decide se faz sentido para ele ou não aquela informação. E o jogo segue em frente. Existem jogos em que eu não falo nada, como o jogo contra Sorana Cirstea na terceira rodada em Wimbledon, mas existem jogos em que eu falo muito, como a partir do segundo set com a Sara Sorribes nas oitavas de Roland Garros (quando Bia venceu de virada).”

“A possibilidade de poder usar o recurso do coaching e as vezes colaborar minimamente para o êxito do jogador dentro de uma determinada partida é, a meu ver, interessante” completou.

Além de Rafael Paciaroni, o fisioterapeuta Paulo Roberto Cerutti e o preparador físico Rodrigo Urso integram a equipe técnica de Beatriz Haddad Maia.


Fonte: Conheça Rafael Paciaroni, o técnico de Bia Haddad – ESPN

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